E Quando o Outro Desaparece?

Tempo de Leitura: 4 min

Estudo de caso (nome fictício): Célia, 52 anos

A Célia conheceu um homem que lhe prometeu mundos e fundos. “Tu és a mulher da minha vida”, disse-lhe ele várias vezes. De todo, ela não esperava algo parecido com uma situação destas, mas a verdade é que se sentiu próxima, houve promessas e entretanto surgiu a ideia de um futuro bonito a dois… logo agora que ela já tinha encaixado a ideia de que provavelmente não iria ter mais ninguém…

Pouco tempo depois, o príncipe do cavalo branco simplesmente desapareceu, sem explicações claras e sem um verdadeiro final. Afastou-se progressivamente, até que se instalou o silêncio absoluto.

Para a Célia, seria necessária uma só conversa para terminar a relação. Contudo, bem lá no fundo do coração dela, era como se existisse uma doce voz que ecoava: “Ele não disse que não quer nada comigo, por isso ainda há esperança. E eu não quero desistir já deste sonho tão bonito…”

Então ela ficou ali, presa neste lugar difícil, à espera de que fosse ele a colocar o ponto final. É como se só assim fosse possível aceitar. À Célia doía-lhe fazer esse corte sozinha, porque, quem sabe, “Talvez ele esteja confuso”, “Talvez esteja numa fase difícil”, “Talvez tudo volte a ser como era no início.”

“Célia, porque é que parece que tem de ser ele quem decide quando a sua história acaba?”

Após algumas sessões de psicoterapia, a Célia começou a compreender que tudo isto encaixava numa ferida muito antiga dentro dela. Esperar por este homem tocava exatamente no mesmo lugar onde, cedo na sua vida, esperou por um pai mais presente e por uma mãe que não tinha assim tanto espaço para a escutar. Era o mesmo sítio da sua infância onde aprendeu a conviver com silêncios, ausências e mudanças de humor sem perceber muito bem o que se passava.

A Célia ficou surpreendida quando tomou consciência de que o silêncio que se instalou na relação com o “príncipe encantado” correspondia exatamente ao silêncio do pai distante e à ausência emocional de uma mãe demasiado sobrecarregada pela vida. Os pais sem dúvida gostavam dela, mas a realidade é que sempre existiu um enorme distanciamento emocional, que só passou despercebido porque sempre foi o normal lá de casa. E esperar por pessoas emocionalmente desligadas, já a Célia estava mais do que habituada.

“Sabe o que me chama a atenção, Célia? É que a sua maneira de esperar por esse homem é muito parecida com a forma como você, criança, esperava pelo seu pai.”

Embora não o dissesse, a Célia, bem lá no fundo, não queria apenas compreender. Ela precisava que fosse ele a dizer o não, como se a sua capacidade de seguir em frente dependesse do outro.

A Célia não estava apenas ligada àquele homem que desapareceu. Estava também ligada àquilo que ele representava. Ela não se apaixonou apenas por um homem; apaixonou-se pela sensação de que a vida iria finalmente correr bem para ela.

E não era só uma relação. Era o homem da vida dela, aquele que vinha emendar todos os outros e preencher os anseios acumulados de uma existência. A Célia teve um casamento longo onde já só existia distância e, passados vários anos a viver mais em função dos outros do que de si mesma, apareceu finalmente alguém que lhe disse: “Anda, ainda vamos a tempo de ser felizes.”

E ela acreditou.

Quando uma promessa destas se quebra, não se perde apenas a relação. Perdem-se as férias que já estavam imaginadas, os passeios de mão dada na praia, os jantares, as manhãs de domingo, os projetos a dois, a sensação de finalmente ter encontrado alguém com quem construir uma vida. É isso que torna a perda tão dolorosa. Não desaparece apenas aquela pessoa; desaparece também o futuro maravilhoso que já tinha começado a ganhar vida dentro de nós.

“Fico com a sensação de que você não está a perder apenas um homem, Célia. É como se estivesse a perder a vida que imaginou ao lado dele. Faz sentido?”

Este tipo de perda é muito difícil porque há pouca realidade onde a dor se possa apoiar. Numa relação mais longa, a dor das desilusões, dos conflitos e das falhas do outro acaba por ajudar a fazer o luto, porque é uma realidade que existe. Mas com a Célia foi diferente. A relação terminou cedo demais para que o encanto se quebrasse, cedo demais para que ela se desiludisse, cedo demais para que pudesse ver as falhas do outro com nitidez.

E então o que ficou não foi apenas uma história interrompida; ficou um sonho bonito por viver. A Célia não perdeu apenas o homem de quem gostava. Perdeu também as férias, os passeios, os projetos a dois e a vida bonita que dentro dela já parecia real. Ela já se via ao lado dele a construir algo em comum e a sentir-se finalmente a viver o sonho… aquele sonho…

Mas, como isso nunca chegou a acontecer no mundo real, também não existiram factos suficientes que desmentissem aquilo que aquele sonho prometia. No fundo, nunca houve provas claras de que ele não era o tal. Houve apenas uma ausência. E a ausência raramente destrói a fantasia. Muitas vezes, alimenta-a. Porque dentro do silêncio dele cabe tudo: “E se ele estava confuso?”, “E se não conseguiu?”, “E se, noutra altura da vida, tivesse sido diferente?”

É como um livro que termina a meio do capítulo mais bonito. Não há um final. E quando não há um final, as histórias tendem a continuar vivas dentro de nós.

É por isso que “seguir em frente” não é assim tão simples. Falta um chão sólido de realidade onde pousar a dor. Existem apenas imagens, promessas e um futuro que nunca chegou a ser vivido, mas que o coração dela já tinha como seu. E talvez seja isso que torna certas perdas tão difíceis de aceitar: não choramos apenas aquilo que tivemos. Choramos também aquilo que, por breves momentos, acreditámos que finalmente iríamos ter.

Por vezes, aquilo que parece ser uma dificuldade em esquecer alguém é na realidade uma oportunidade para compreender partes mais profundas de nós próprios. A psicoterapia pode ajudar a transformar uma perda dolorosa num caminho de maior consciência, liberdade e crescimento pessoal. Porque nem sempre é a pessoa que nos prende. Muitas vezes, é a história que continuamos a contar sobre ela.

Pedro Abranches
Psicoterapeuta Transpessoal

1 Comment

  • Cândida
    Posted 29 de Junho, 2026 at 14:09

    Revejo-me nesta história! Colocar um ponto final é admitir que de alguma forma falhamos no percurso! É preciso coragem para ver e admitir que foi bom, mas que a vida tinha que seguir o seu caminho e que se já não faz sentido, há que seguir em frente e apostar numa nova aventura. Uma vida que nos deixe mais ricos e faça sentido para cada um de nós. Quando nos vemos de fora tornamos mais visível aos nossos olhos, o que se passa no coração!

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