A psicoterapia é uma ferramenta muito eficaz no alívio da dor emocional e, muitas vezes, também de sintomas físicos ligados ao stress e à ansiedade. Pode ajudar-nos a mudar padrões que se repetem na nossa vida, como o tipo de relações que escolhemos, as situações em que acabamos por nos envolver ou a sensação de que está sempre a acontecer a mesma coisa.
Muitas vezes, sem nos apercebermos, transmitimos aos outros as crenças que temos sobre nós próprios, por exemplo, a ideia de que não somos suficientes, interessantes ou dignos de atenção. Essas mensagens influenciam a forma como os outros nos respondem e acabam por confirmar aquilo que já temíamos. Com o tempo, cria-se um ciclo difícil de quebrar, que nos dá a sensação de que é o mundo que está constantemente contra nós.
Os nomes que se seguem são fictícios e são utilizados apenas para proteger a identidade das pessoas.
O caso do Paulo: quando sentimos que ninguém nos ouve
O Paulo vive transtornado com a sensação de que ninguém o quer ouvir. Quando fala, acredita que as pessoas desviam o olhar, mudam de assunto ou simplesmente não dão importância ao que diz. Aos poucos, começa a falar mais baixo, a sentir-se inseguro e a desistir a meio das frases, reforçando, sem querer, a ideia de que a sua voz não conta.
No fundo, sente-se insuficiente e pouco importante para os outros.
O Paulo está a recriar algo que aprendeu muito cedo. Quando era miúdo, muitas vezes sentiu a distância emocional dos pais, que estavam distraídos, cansados ou emocionalmente indisponíveis. Sendo ainda pequeno, não conseguiu perceber que o problema não estava nele. No íntimo do seu sistema límbico ficou guardada a mensagem de que ele não era suficientemente interessante ou desejado.
Hoje, sem se aperceber, leva essa expectativa para as relações com os outros e acaba por comunicar com muita insegurança, recriando a mesma experiência de não ser ouvido e de não se sentir importante que viveu em criança.
O caso da Ana: quando nos apaixonamos sempre pelo mesmo tipo de pessoa
A Ana não percebe por que é que determinados padrões continuam a aparecer. Apaixona-se quase sempre por homens distantes e pergunta a si própria, entristecida, por que razão lhe acontece sempre esta mesma repetição.
Uma boa parte da resposta está na forma como o nosso cérebro funciona. Todos nós tendemos a sentir mais segurança naquilo que nos é familiar, mesmo quando esse familiar não nos faz bem. Na infância da Ana, as pessoas de quem ela mais gostava, os seus pais, eram infelizmente emocionalmente distantes. Não porque não a amassem, mas porque também eles aprenderam a relacionar-se e a amar desta forma.
Para o sistema emocional da Ana, foi assim que o amor ficou registado.
Como criança que era, olhava os pais como figuras muito importantes e, na sua inocência, assumiu que o problema poderia estar nela própria:
“Se os meus pais não me desejam tanto quanto eu preciso, talvez seja porque eu não sou suficiente.”
Ao mesmo tempo, como acontece com muitas crianças, fez tudo o que pôde para preservar o vínculo com eles. Tentava ser mais, esforçar-se mais, agradar mais, na esperança de conquistar a proximidade que lhe faltava.
Agora, na idade adulta, sem se aperceber, continua a procurar algo que ficou por resolver. Procura, no colo de homens distantes, o colo perdido desses pais emocionalmente afastados que teve. Tal como fazia com os pais, mantém dentro de si um sentimento de insuficiência que leva às relações. É como alguém que regressa à mesma porta fechada, acreditando que um dia ela finalmente se vai abrir.
O caso do Rui: quando sentimos que nunca somos suficientes
Já o Rui interpreta cada contratempo da vida como uma confirmação de que ele é uma nulidade. Quando não é selecionado para um trabalho ou, por exemplo, alguém não responde a uma mensagem sua, sente-se rejeitado e conclui imediatamente que o problema é ele.
Aos poucos começa a desistir antes de tentar, a sentir-se derrotado logo no início do jogo, a encolher-se nas oportunidades e a ler o mundo como se este estivesse constantemente a confirmar o pior receio acerca de si próprio.
No fundo, o Rui também está a repetir algo que aprendeu muito cedo. Quando era criança, cresceu num ambiente onde foi muitas vezes criticado, comparado com o irmão e pouco reconhecido pelos pais. Os erros eram apontados, mas os sucessos raramente sobressaíam.
Como era ainda pequeno, não tinha como compreender que aquelas atitudes falavam mais das dificuldades dos adultos do que do seu verdadeiro valor. No seu mundo emocional ficou gravada a ideia de que nunca era suficientemente bom.
Hoje, sem se aperceber, transporta essa expectativa para a vida adulta e interpreta os acontecimentos através desta lente antiga, como se o mundo estivesse constantemente a confirmar aquilo que aprendeu a acreditar sobre si próprio.
Porque estes padrões se repetem
Grande parte do nosso sofrimento deve-se ao facto de não termos grande consciência do que vivemos na infância. Na altura, aquilo era simplesmente o nosso normal. Não havia termo de comparação.
Quando éramos pequenos e ainda não tínhamos capacidade de autorregulação emocional, o nosso sistema nervoso dependia totalmente dos afetos e dos cuidados dos nossos pais. Se, por alguma razão, deixámos de poder contar com eles — seja porque não queríamos ser um peso, seja porque não estavam disponíveis e sentimos que tínhamos de ser fortes — algumas experiências tornaram-se tão difíceis, tristes ou assustadoras que acabámos por “guardá-las” numa espécie de caixinha fora da nossa consciência, precisamente para conseguirmos continuar.
O problema é que, mesmo escondidas, essas experiências continuam a influenciar o que sentimos e a forma como reagimos ainda hoje, como se fossem lentes antigas através das quais aprendemos a olhar o mundo.
Um lugar seguro para mudar
A boa notícia é que estes padrões não têm que durar para sempre. Quando nós começamos a compreendê-los e a dar um nome ao que vivemos, alguma coisa dentro de nós começa aos poucos a mudar.
A psicoterapia é o lugar seguro onde, pouco a pouco, deixamos de viver presos ao passado, e começamos a construir formas mais livres e mais verdadeiras de estar connosco e com os outros.
Pedro Abranches
Psicoterapeuta Transpessoal